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22 de janeiro de 2011

A hora das verdades


"Quando a tragédia nos golpeia, nossa natureza pede explicações, tenta pôr ordem no caos, busca um sentido naquilo que não parece ter sentido algum." (Barack Obama, 12/1/2011)
O presidente americano estava em Tucson, Arizona, para homenagear os mortos no atentado terrorista contra a deputada democrata Gabrielle Giffords. Horas depois, na madrugada daquela mesma quarta-feira (12/1), desabava na região serrana do Rio de Janeiro uma violenta tromba d’água que provocou o maior desastre já registrado na história brasileira. O emocionado discurso de Obama, elogiado até pelos adversários, foi considerado um de seus melhores: aplacou os ódios, sobretudo evitou prejulgamentos simples e fáceis.

Marcada pela sucessão de desastres climáticos acontecidos um ano antes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, nossa mídia reagiu com indignação. Denunciou a desatenção das autoridades aos alarmes, reclamou contra a ausência de uma política prevenção, acusou os políticos demagogos que em troca de votos mantêm grandes parcelas da população em áreas de risco.

A mídia acordou antes das autoridades, mostrou a catástrofe enquanto se consumava e está cobrindo todos os desdobramentos com uma persistência inusitada. A assombrosa cadeia de solidariedade que prontamente se articulou em todo o país foi uma resposta a este esforço de reportagem. A participação da âncora do Jornal Nacional Renata Vasconcellos, durante dois dias na cobertura in loco, foi simbólica: ofereceu ao nosso telejornalismo aquela devoção ao ofício há muito desaparecida.

Hegemonia criminosa
A mídia sente-se, portanto, legitimada para fazer exigências, espernear, indignar-se, malhar. Mas precisa levar em conta o entrelaçamento das causas: não foi só a quantidade de chuva – nem apenas a precariedade em que vive parcela substancial da nossa população – a responsável pelo funesto recorde de vítimas.

Apesar da euforia do último ano, o país está atolado em impasses cruciais. O regime, as instituições, a sociedade vivem contradições que se agigantam, assustadoras, nas emergências.

Nossa imprensa ainda não conseguiu assumir-se como real prestadora de serviços públicos. Não é uma concessionária, mas a principal beneficiária de um sistema de liberdades que a obriga a contrapartidas e sacrifícios que não ousa fazer. Assustada com os boatos que ela própria divulga sobre o seu próximo fim, esquece a missão de defender o sagrado interesse coletivo mesmo quando os seus estão ameaçados.

O crescimento das nossas cidades precisa ser drasticamente disciplinado, o uso do automóvel precisa ser limitado, o crescimento da economia deve ser sustentável, o consumismo e o desperdício não podem ser as molas mestras do desenvolvimento. No entanto, nenhum veículo jornalístico tem a coragem de mostrar as aberrações e distorções produzidas pelo mercado imobiliário ou propor qualquer limitação à criminosa hegemonia dos carros nas vias urbanas.

Convém não esquecer que a mídia paulistana não apenas abominou, mas fez o possível e o impossível para impedir a adoção do rodízio de carros em 1996. Temia uma forte redução nas vendas que, infelizmente, não se materializou.

Função da tragédia
Enquanto a meteorologia se torna a vedete do noticiário e as deficiências na previsão do tempo dominam as arengas dos recantos de opinião, é preciso reconhecer que nossa mídia – com a exceção das emissoras de rádio – ainda não aprendeu a induzir o seu público a se interessar pelas variações do tempo. Nem os jornais, a televisão ou a internet conseguem sensibilizar as respectivas audiências para esse importante indicador publicado diariamente há mais de um século, apto a evitar inconvenientes pessoais e catástrofes nacionais, no entanto invariavelmente tosco.

Para impor-se junto à opinião pública, a imprensa deve se mostrar capaz de dolorosas coerências e sacrifícios. A mesma veemência para denunciar políticos corruptos deveria dirigir-se às incorporadoras e construtoras que apostam em aglomerados de luxo, esquecidas de que cada unidade produzirá automaticamente cinco ou seis casebres em áreas de risco na periferia.

A função da tragédia é produzir catarses, delas nascem verdades. Uma imprensa sadia não pode ignorá-las. Uma imprensa madura deve pressentir que também ela tem culpas.

Fonte: Observatório da Imprensa (Alberto Dines).

21 de janeiro de 2011

Ministério Público Federal está de olho no “Big Brother” e seus excessos

No dia 20 de dezembro, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (PFDC/MPF) enviou um documento à Rede Globo pedindo atenção aos direitos constitucionais e da pessoa humana na 11ª edição do reality show “Big Brother Brasil” – BBB11.

A ação foi motivada pelo alto número de denúncias que a última edição do programa recebeu. De acordo com a campanha “Ética na TV – Quem financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, o BBB10 foi o campeão de reclamações no período entre agosto de 2009 e abril de 2010. Foram 227 denúncias que relatavam desrespeito à dignidade humana, nudez, exposição de pessoas ao ridículo e apelo sexual. De acordo com a PFDC ainda há problemas de homofobia, incitação à violência e inadequação no horário de exibição.

A Recomendação enviada à Rede Globo também adverte à emissora que observe a sua própria autorregulamentação, na qual o grupo assumiu “a missão de exibir conteúdos de qualidade que atendam às finalidades artística, cultural, informativa, educativa e que contribuam para o desenvolvimento da sociedade”. A emissora deve também tomar as medidas necessárias para evitar as violações de direitos humanos, além de veicular o programa no horário adequado, atentando para as diferenças de fusos horários e também para o horário de verão.

Violência liberada

Apesar da Recomendação enviada pelo Ministério Público, a Rede Globo não deu indícios de mudança no comportamento. Aliás, fez o contrário. Recentemente, o diretor do programa, José Bonifácio de Oliveira, conhecido como Boninho, declarou que decidiu “liberar a porrada” nesta edição de “Big Brother”.

A decisão do diretor causou protestos por parte de diversos grupos feministas que se preocupam com a banalização da violência, como foi relatado aqui.

Prazo e sanções


A Procuradoria deu à Rede Globo o prazo de 30 dias para se manifestar quanto à adoção das recomendações feitas no documento. Até o momento a emissora não se manifestou quanto à Recomendação, e o prazo expira nesta semana. O documento em si não gera nenhum tipo de sanção à Rede Globo, cumprindo a função de uma advertência. A penalização ocorrerá se algum direito ou lei for desrespeitada pelo BBB11.

Fonte:Obs. do Direito à Comuinicação (Juliana Sada).

20 de janeiro de 2011

Regulação da mídia não é prioridade para parlamentares

Os jornais Folha de S.Paulo e O Globo são os preferidos dos parlamentares brasileiros, indica estudo do Instituto FSB, que ouviu 307 deputados federais e 33 senadores, entre os dias 6 e 17 de dezembro de 2010.

De acordo com a pesquisa, 70% dos parlamentares preferem a Folha, 33% O Globo, 17% O Estado de S.Paulo, 14% o Correio Braziliense e 12% o Valor Econômico.

Parlamentares se informam mais pela web do que pela TV
O jornal continua sendo o meio mais utilizado pelos congressistas para obter informação, mas a internet passou na frente da televisão. Dos parlamentares, 62% usam o jornal como principal meio de informação, 23% a internet, 9% os telejornais e 3% rádios.
"O jornal ainda é a mídia preferida pelos parlamentares. Ainda é o espaço de maior reflexão. A internet está crescendo, mas para os parlamentares ainda tem um déficit de credibilidade em relação ao jornal", explica Wladimir Gramacho, coordenador do estudo.
Ao contrário da população em geral, 80% que tem a TV como seu principal meio de informação, os políticos são diferentes. "Uma grande diferença dos parlamentares da população em geral é que eles não preferem a TV, porque a informação política na TV é muito pequena. Para os parlamentares, ela traz pouca informação útil em relação aos outros meios", destaca Gramacho.

Os portais e blogs preferidos pelos parlamentares são o UOL (32%), G1 (31%), Folha.com (22%), Blog do Noblat (11%) e blog do Josias de Souza (5%).


O estudo também indica que 43% dos parlamentares consideram a mídia muito importante para formar opinião sobre assuntos políticos. Divididos por partidos, 61% dos congressitas do PMDB têm essa opinião, seguido pelo PSDB (47%) e PT (19%).

Regulação da mídia não é prioridade
Para os parlamentares, a regulamentação da imprensa não é uma prioridade, já que apenas 4% declararam que gostariam de votar no tema no primeiro semestre de 2011. Para 87% a reforma política é o tema de maior interesse, seguido pela reforma tributária (78%), código floresta (20%), reforma previdenciária (7%) e união civil de pessoas do mesmo sexo (2%).


Fonte: Comunique-se (Izabela Vasconcelos). Título original:  Folha e Globo são os jornais preferidos pelos parlamentares.

17 de janeiro de 2011

A realidade da internet

A internet revolucionou a comunicação no mundo inteiro. As pessoas encontram-se na rede, em tempo real, trocando milhões de informações, gerando conhecimento (e negócios). Tudo é encontrado de forma fácil e ágil por meio de um clique. Há uma projeção da casa do usuário ao planeta inteiro através de uma rede eficiente, o ponto de conexão global. Contudo, não se pode esquecer que esta plataforma é, acima de tudo, uma expressão do sistema, e como tal deve ser encarada, o que de longe representa rejeição, mas incorporação crítica, buscando sua subversão.

Inseridas neste contexto de reconfigurações surgem ferramentas úteis para a vida das pessoas, no trabalho ou em casa. A internet é fonte inesgotável de diversão, lazer e conhecimento. Na sequência surgiram as redes sociais, verdadeiras febres, utilizadas para as mais variadas intenções, da autopromoção de pessoas em busca de fama a comunidades divulgando ideias, passando por soluções corporativas. Neste espaço social há liberdade sobre o que dizer (e, no caso, agir), desde que acessível uma conexão de banda larga, que segmenta seu cliente conforme suas possibilidades de pagamento ao meio digital.

Toda uma gama de possibilidades

 Apesar de existirem as lan houses, locais de disponibilização de internet utilizados principalmente por setores de baixa renda, elas também excluem, por requererem pagamento. O público é dividido entre aqueles que podem realmente utilizar a rede de maneira plena, no horário que melhor lhes convier, e os que não podem usufruir destes benefícios. Trata-se de um problema social que se constitui em um desafio a ser ultrapassado para o país democratizar o acesso aos meios digitais. Usar plenamente a internet é poder dispô-la a qualquer momento, em casa, com uma conexão de rede capaz de trafegar dados com rapidez.

Outro obstáculo sério é a educação, faltando não raro capital cultural para o uso da internet com melhores resultados em termos de formação do indivíduo, sua inserção social e mesmo busca de rentabilidade, consequentemente. Em sites, comunidades e blogs, vários usuários puderam realizar seu sonho de aparecer para o mundo, mas com que objetivo? A educação é fundamental para utilizar a internet de forma responsável e cidadã. Pouco adianta bradar por revolução comunicacional se a rede é utilizada não só para consumir produtos das mesmas indústrias culturais dos meios tradicionais, mas para toda sorte de uso irresponsável.

A rede tornou-se um território onde tudo é aceito, transformando-se também em uma arma poderosa para cometer atos ilícitos contra os diversos segmentos da sociedade, incitando o ódio e ratificando preconceitos de raça, religião e classe social. Comunidades usam tom mais agressivo a fim de atingirem com maior efetividade seus objetivos. Nas ferramentas de interação social muitas vezes aflora uma espécie de patologia social, com indivíduos agredindo outros ou defendendo o neonazismo, enquanto torcidas incitam à violência e combinam brigas. Na internet há toda uma gama de possibilidades, em termos de informação e conhecimento, ao mesmo tempo em que se fica refém de variados modos de atos ilícitos.

Escravos da tecnologia 

Na internet, há liberdade para a expressão de opiniões, mas o preço é caro. Os sujeitos são controlados, com seus dados sendo armazenados pelas empresas que realizam o serviço, por meio de algoritmos que exercem a função de vigias da rotina diária do usuário, em computadores tradicionais, cartões de banco e outras formas de registro de informações. Um problema que toma dimensões gigantescas, pois o controle faz do espaço proposto como democrático uma prisão, onde o usuário está confinado, com seus dados para possível utilização empresarial e mesmo política. Ele é atacado com a violação de e-mails, controle de navegação, oferta de produtos em espaços pessoais e outras imposições da tecnologia.

Com a simples presença de um chip no cartão, a pessoa é monitorada pelo banco, acerca de seus saques e pagamentos realizados, gerando o controle do cidadão. A vida passa vigiada a cada passo. Uma escravidão que aprisiona o internauta sem ele próprio saber que, desta forma, cai em uma verdadeira rede, estando sem ação frente às regras de jogo. Um jogo em que o usuário vai ao encontro do universal, numa sensação de liberdade total em frente a um computador, sem saber que os dados digitados e suas preferências estão sendo armazenados, seja pelo provedor de acesso, o navegador ou todo tipo de sítio de conteúdo.

A internet, a ferramenta que revolucionou a comunicação e a forma de entrar em contato com as pessoas dos locais mais remotos do planeta, converteu-se em um instrumento cujas consequências ainda não são inteiramente conhecidas. O ser humano torna-se frágil e pequeno em meio a todo este aparato tecnológico que armazena sua vida, desde dados preferenciais de consumo a endereço, passando por números de todo tipo de cartão de compra e identificação. É um caminho de difícil volta: o ser humano virou escravo de toda esta tecnologia, tornando-se dependente de um sistema que manipula, controla e ainda é pago.

Fonte: Observatório da Imprensa (Valério Cruz Brittos e Éderson Pinheiro da Silva).

16 de janeiro de 2011

[ÁUDIO] Comunicação sindical em contraposição à hegemonia

Esta semana publicamos o áudio da apresentação do professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Luiz Anastácio Momesso durante o Seminário Alagoano de Economia Política da Comunicação. O tema da sua palestra foi a "Comunicação Sindical em contraposição à hegemonia", apresentada no painel Por uma comunicação contra-hegemônica: história, limites e perspectivas, realizado no dia 08 de julho de 2010.

Dialogando com a desconstrução da matriz ideológica capitalista na comunicação, o professor Luiz Momesso narrou em sua fala a história da imprensa operária no Brasil. Do auge de suas quatro décadas de militância na mídia sindical, ele mostrou preocupação com a desvalorização do papel formador da imprensa contra-hegemônica nas entidades classistas.