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9 de setembro de 2010

Ouro, cobre, notícias e reality shows


Há cerca de 10 dias, eu conversava sobre a dinâmica do capitalismo e a destruição de forças produtivas (instrumentos, maquinário, fábricas, mão-de-obra etc.) quando o desenvolvimento destas representavam uma ameaça ao acúmulo de capital. Chegamos, assim, ao caso do grupo de 33 mineiros que ficou preso na mina de San José, no norte do Chile, há um mês. A mina pertence à mineradora San Esteban, indústria de mineração privada responsável por empregar a mão-de-obra necessária para extrair ouro e cobre para vender ao governo chileno.

Não me estenderei em descrever outros detalhes, dada a farta oferta de informações sobre o caso. Mas sugiro, sim, a leitura de ao menos algumas dessas notícias, para que se compreenda melhor este texto. Atenho-me ao modo como tais informações têm chegado aos brasileiros.

Assistindo ao noticiário e navegando por sites de notícias, imediatamente surgiram as seguintes questões, ao mesmo tempo ilustrativas e explicativas: como é possível que uma sociedade que desenvolveu tecnologia para enviar homens ao espaço, que é capaz de localizar e explorar petróleo a 7 km de profundidade, ultrapassando uma barreira de sal petrificado, que já consegue teletransportar matéria, não seja capaz de retirar 33 trabalhadores de uma mina com 700 metros de profundidade antes do final do ano? Como é possível que só depois de vários dias se tenha dado falta dos mesmos 33 trabalhadores? A mineradora realmente não sabia, ninguém apareceu por lá esses dias?


A cavalaria chegou a tempo!

A despeito de qualquer declaração tecnolóide que nos possam oferecer, absolutamente nada justifica tal acontecimento, exceto uma coisa: aqueles 33 trabalhadores, aquela força produtiva, passou a representar um entrave à acumulação de capital da mineradora San Esteban. Retirar aqueles trabalhadores de lá geraria um déficit para a San Esteban. Em casos como esse, a lógica da acumulação de capital diz: destruam as forças produtivas! A mina já havia sido condenada por não oferecer segurança e agora havia 33 malditos motivos para não se mexer mais naquele lugar.

Por que esse desenvolvimento inicial é importante? Pelo simples fato de que nenhum veículo de mídia tocou nesse ponto – diga-se de passagem, o ponto fundamental para entender o acontecimento. Nesse meio tempo, eu já havia visto notícias com infográficos, notícias, fotos dos 33 trabalhadores, declarações de familiares e do governo chileno. Comentei que era mais fácil que se fizesse daquela situação um verdadeiro reality show e, posteriormente, um filme (nos moldes dos filmes do 11 de setembro estadunidense, entre tantos outros), do que iniciar o resgate dos trabalhadores.

Alguns dias depois, o mundo explodiu em veiculação de vídeos gravados pelos mineiros – supostamente vídeos para acalentar os familiares, para que soubessem que eles ainda estavam vivos, confirmando o que eu havia comentado. O show da vida real ganhou o mundo.

A veiculação aconteceu ainda quando estavam mornas as primeiras notícias, já que o salvamento não havia sido iniciado de fato, e colocou fogo alto nas notícias, renovando o trunfo da audiência de sites, jornais, revistas e televisão. Em uníssono, todos dizem: estão todos bem! Os vilões são os donos da mineradora, que já teve seus bens bloqueados! Até o final do ano, os felizes mineiros estarão com suas famílias! Eles já não estão com depressão! Eles vão ganhar playstation e joguinhos para se divertirem até que sejam salvos! A Nasa chegou, olha a cavalaria bem a tempo!


A mercadoria-audiência

Uma revista de circulação nacional publicou na capa: "Os 33 mineiros serão mantidos vivos. Será a maior experiência de confinamento em profundidade da história da humanidade". Como até todo jornalistazinho mal (in)formado sabe, manchetes são o cartão de visitas, o convite à leitura. Para garantir isso, entre outras características, as manchetes devem surpreender ou despertar a curiosidade do leitor em potencial. Pois veja que surpreendente! Aquelas 33 criaturas incautas serão mantidas vivas! Isso, sim, é que é surpresa, eu já estava certo de que seriam abandonados para morrer... E que fantástica experiência! Conseguimos 33 voluntários para nosso experimento, vamos saber os efeitos de um confinamento de quatro meses em um espaço de 25 metros quadrados (ou seja, menos de 1 m² por pessoa), de onde não é possível pedir para sair, nem ser votado no paredão, muito menos ganhar R$ 1 milhão.

Se houve manifestações de apoio aos mineiros que não partiram dos próprios familiares, nenhuma linha foi publicada. Assim como nenhuma linha sobre a lógica que conduz ao desprezo pela vida de 33 trabalhadores, primeiro enviados a um local condenado por falta de segurança, segundo por não haver a empresa comunicado o acontecido ou sequer feito alguma tentativa de resgate. Hoje foi a San Esteban. Quantas San Estebans já passaram e quantas estão por vir? Não é o acaso que produz tanta desumanidade.

Pode-se argumentar que, não fosse a presença da mídia, o resgate demoraria muito mais, talvez não acontecesse. É possível. Mas chamo atenção para o fato de que o capital, mesmo quando potencialmente pode sofrer um revés, converte-o em mercadoria. Nesse caso, a mercadoria-audiência da mídia. E sensacionalistas são só os programas policialescos, não é mesmo? Vejamos até onde vai durar tamanha preocupação da heroica mídia com o caso, quando um novo fato surgir...

Fonte: Júlio Arantes (Cepcom-Comulti).

* Texto publicado no Observatório da Imprensa

8 de setembro de 2010

Sessentona e desregulada

Setembro é o mês de aniversário da televisão no Brasil e 2010 marca os seus 60 anos. Uma idade respeitável, sem dúvida. Ao lado das celebrações, devemos aproveitar o calendário e fazer alguns rápidos registros sobre essa instituição formidável que alcançou importância única em nossa sociedade.

O que de relevante tem acontecido com a televisão brasileira nos últimos anos?

Certamente, ela já viveu melhores dias. Aos 60 anos, há uma significativa queda na sua audiência média – conseqüência, dentre outras causas, das profundas mudanças provocadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Esse, por óbvio, não é um problema exclusivamente brasileiro. Entre nós, permanece, há décadas, a liderança da mesma rede, embora seus principais programas e gêneros não alcancem mais as incríveis audiências que tiveram no passado.

Há algum tempo, merece destaque no setor a passagem do sistema analógico para o digital. A decisão sobre qual o modelo de TV digital seria adotado no país sofreu uma guinada de 180 graus entre 2003 e 2006 e a opção pelo modelo japonês, que privilegia a mobilidade e a qualidade da imagem em detrimento da abertura para novos concessionários, acabou prevalecendo. Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) que contestava a constitucionalidade da decisão foi recentemente julgada improcedente pelo STF (ver, neste Observatório, "STF confirma ‘erro histórico’").


Atraso de décadas

Um importante avanço, sem dúvida, foi a criação da primeira experiência de TV pública no país – a TV Brasil da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em 2007. Embora previsto no artigo 223 da Constituição de 1988 para ser complementar aos sistemas privado e estatal de radiodifusão, não havia, até então, sequer uma positivação legal do que seria um sistema público de televisão. Apesar de enfrentar a sistemática e impiedosa hostilidade do sistema privado comercial dominante e de seus aliados na mídia impressa, a TV pública vai aos poucos se consolidando e, espera-se, possa, no médio prazo, se transformar em referência de qualidade para a televisão brasileira.

Há, no entanto, uma área em que continuamos onde sempre estivemos: a regulação do exercício da atividade televisiva.

A procuradora Vera Nusdeo, em belo capítulo intitulado "A lei da selva", no livro organizado pelo jornalista e professor Eugênio Bucci [A TV aos 50, Criticando a Televisão Brasileira no seu Cinqüentenário, Editora da Fundação Perseu Abramo], escreveu:


"Entre nós, a legislação não contribui para formar uma mentalidade, tanto do público como dos concessionários de televisão, baseada no direito à informação do primeiro e na obrigação dos segundos de prestar um serviço de qualidade, respeitando os valores éticos e sociais e não apenas atendendo aos interesses dos anunciantes. Comparada à legislação de outros países, a brasileira é de um laconismo que reflete com perfeição a falta de consciência da relevância do meio televisivo no mundo contemporâneo e, consequentemente, a responsabilidade social subjacente ao exercício dessa atividade".

Dez anos depois, a mesma avaliação pode ser feita, agora com uma agravante: apesar da sua óbvia necessidade, das propostas da 1ª Confecom e de seu atraso de seis décadas (o Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962!), não há sinais convincentes de que algum tipo de regulação do exercício da atividade televisiva esteja a caminho, pelo menos no médio prazo.


Sem regulação

Há poucas semanas comentei neste Observatório que o presidente Lula havia assinado decreto criando uma comissão interministerial para "elaborar estudos e apresentar propostas de revisão do marco regulatório da organização e exploração dos serviços de telecomunicações e de radiofusão" (ver "Dezesseis anos, três decretos e nada muda").

Apesar de o ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), haver declarado, à época, que "a idéia é deixar para o próximo governo propostas que permitam avançar numa área crucial e enfrentar os desafios e oportunidades abertos pela era digital na comunicação e pela convergência de mídias", circulou a informação de que o próprio presidente Lula queria enviar ao Congresso Nacional, ainda em seu governo, a proposta de marco regulatório.

Todavia, a serem verdadeiras as últimas notícias divulgadas na grande mídia sobre o assunto, "o governo desistiu de encaminhar ao Congresso Nacional, logo após as eleições, projeto de nova regulamentação das comunicações no país (...) isso, será uma tarefa do próximo governo". (cf. Luiz Carlos Azedo, "Brasília DF", Correio Braziliense, 5/9/2010, pág. 7).

Como bem disse a procuradora Vera Nusdeo, dez anos atrás, no capítulo já citado:


"No Brasil, o Estado se limita ao seu papel de conceder canais. Fora isso, o que impera, desde sempre, é a total falta de regulamentação [da atividade televisiva], talvez por medo de que qualquer discussão sobre o assunto possa dar a impressão de censura e obscurantismo."

A televisão brasileira chega, portanto, aos seus 60 anos, da mesma forma que tem estado em praticamente toda a sua história: sem um marco regulatório que discipline sua atividade.
Convenhamos, essa não é uma condição a ser celebrada.

7 de setembro de 2010

Intercom acabou, mas a cobertura continua

Colegas, o Congresso Nacional da Intercom acabou há pouco, mas algumas matérias ainda serão postadas aqui no blog. Acredito que todas elas pertinentes ao universo do Jornalismo e, principalmente, do estudos científicos da Comunicação Social, como é o caso da Economia Política da Comunicação. Em virtude de dificuldades técnicas, os textos serão publicados ao longo da semana, em uma velocidade menor. Mas fiquem atentos, que para os alagoanos a presença da Intercom está só começando!

Veja os premiados do Expocom 2010

Agência Experimental de Comunicação Integrada da UCS

Um dos momentos mais emocionantes do Intercom 2010 é o reconhecimento dos trabalhos dos alunos de graduação. Para celebrar os esforços acadêmicos dos estudantes que inscreveram 272 trabalhos, foi entregue na tarde desta segunda-feira, dia de encerramento do Intercom, o VII Expocom que valoriza os trabalhos praticos produzidos no ano passado.

Acesse o link e veja a galeria com todos os premiados das 70 modalidades nas cinco categorias do Expocom.

Fonte: Intercom Caxias

6 de setembro de 2010

Jornadas Autorais de Comunicação

Agência Experimental de Comunicação Integrada da UCS


Hoje pela manhã as Jornadas Autorais seguiram a sua programação com a presença do seu idealizador, o Professor José Marques de Melo (UMESP) na mesa de discussões e também na plateia. Este é o primeiro INTERCOM em que o encontro é realizado e é um espaço para homenagear e comemorar efemérides relacionadas a grandes nomes da comunicação.

A primeira jornada desta segunda-feira foi sobre o historiador Nelson Werneck Sodré e sua contribuição aos estudos de comunicação. Mediado pela Professora Marialva Carlos Barbosa (UTP), o encontro contou com a presença dos professores José Marques de Melo, Antonio Hohlfeldt - representando o professor português Jorge Pedro Sousa (UP-PT)-, Ana Paula Goulart Ribeiro (UFRJ), Luitgarde Cavalcanti Barros (UERJ) e Olga Sodré (UERJ), que além de pesquisadora, é filha de Nelson Sodré. Os convidados trouxeram artigos abordando diversos aspectos da vida e obra do historiador, que serão publicados para o próximo Intercom, quando se comemora o centenário da vida de Sodré. 

A Professora Valci Zuculotto (UFSC) mediou a discussão sobre o Padre Roberto Landell de Moura em comemoração aos seus 150 anos, fechando as jornadas autorais. O escritor Hamilton Almeida, juntamente com o jornalista Eduardo Ribeiro defendem o reconhecimento do Pe. Landell por sua invenção do rádio. O Professor Moacir Barbosa (UFRN) tratou sobre o método Kirlian de fotografia, também desenvolvido pelo Pe. Landell e sua relação com a paranormalidade.