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23 de setembro de 2010

Razões para a hostilidade crescente

O processo eleitoral e a indisfarçável partidarização revelada na cobertura jornalística dos principais veículos da grande mídia provocaram, nas últimas semanas, reações cada vez mais explícitas e contundentes por parte do próprio presidente da República. Por outro lado, o atual governo chegará ao seu término enfrentando uma hostilidade crescente por parte desses veículos. A virulência dos ataques de editoriais e colunistas contra o governo e o próprio presidente Lula encontram poucos e raros paralelos na história política brasileira.

A hostilidade entre alguns veículos e o governo é agora, mais do que antes, inegavelmente recíproca e pública.


Razões intrigantes

Nesse contexto, diante da proximidade das eleições e da provável vitória da candidata apoiada pelo atual governo – aos quais esses veículos fazem oposição explícita – é inevitável que surjam questões que não só busquem compreender o que vem acontecendo no processo eleitoral, mas, sobretudo, questões prospectivas de como poderão ser as relações da grande mídia com o próximo governo.

Uma questão, em particular, desafia o senso comum: afinal, quais razões teriam levado os principais grupos da grande mídia a fazer oposição sistemática a um governo que continua a contar com maciço apoio popular?

Um observador da mídia que não tem acesso a informações dos bastidores do poder – nem propriamente político, nem midiático – por óbvio, também não tem como responder a essa pergunta. Todavia, é intrigante a constatação do que está a ocorrer.

No Brasil, ao contrário do que acontece em alguns países da América Latina, os oito anos de governo Lula não representaram a mais remota ameaça à grande mídia. Em nossos vizinhos, apesar da oposição de grupos dominantes de mídia, foram democraticamente eleitos governos que tomaram a iniciativa de rever e/ou propor nova regulação para o setor de comunicações, desafiando interesses historicamente enraizados. Aqui nada disso ocorreu.

A grande mídia nativa não foi objeto de qualquer regulação ou saiu derrotada de qualquer disputa em relação às políticas públicas do setor de comunicações. Basta verificar que nos projetos (ou mesmo pré-projetos) e programas nos quais ela considerou estarem seus interesses ameaçados, houve recuo do governo Lula e/ou os projetos não lograram aprovação no Congresso Nacional.

Exemplos: a criação do Conselho Federal de Jornalismo (em 2004); a transformação da Ancine em Ancinav (em 2005); a criação das RTVIs (em 2005); a guinada em relação ao modelo de TV Digital (de 2003 para 2006); a nova regulação das rádios comunitárias que apesar de recomendações geradas em dois grupos de trabalho não saiu do papel (2003 e 2005); a regulação da TV paga através do PL 29 (2007) que até hoje tramita no Congresso Nacional; o recuo nas propostas relativas ao direito à comunicação constantes da terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (2009); o anunciado projeto de uma Lei Geral de Comunicação de Massa que nunca se materializou; etc. etc.

A única medida de política pública – aliás, prevista no artigo 223 da Constituição de 1988 – que logrou ser implementada pelo governo Lula foi a criação de uma empresa pública de comunicação, a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que, embora ridicularizada pela grande mídia, é complementar a ela e não representa qualquer ameaça.

Por outro lado, a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, em dezembro de 2009 – que tem efeitos apenas propositivos –, foi não só boicotada como satanizada nos principais veículos de comunicação do país.

O que teria provocado, então, tamanha hostilidade dos grupos dominantes de mídia?

Vivemos em plena liberdade da imprensa. O governo não deixou de aplicar vultosos recursos em publicidade oficial paga destinada exatamente à grande mídia. Apesar disso, além da oposição política publicamente admitida inclusive pela presidente da ANJ, a grande mídia insiste em anunciar que o atual governo constitui uma permanente ameaça à liberdade de expressão e que o seu partido padece de uma obsessão autoritária e stalinista de controlar a imprensa.


Outras questões

Diante de tamanho enigma, outras questões igualmente inquietantes carecem também de resposta.

Qual será o comportamento desses veículos depois das eleições? Que tipo de relação é possível se construir entre eles e o novo governo, especialmente se for eleita a candidata que enfrentou sua oposição sistemática? Que comportamento esperam esses veículos do novo governo?

E mais: o que acontecerá com a credibilidade de veículos de mídia que (1) praticam "jornalismo investigativo" seletivo, em relação apenas a uma das candidaturas e (2) transformam suspeitas e denúncias em "escândalos políticos midiáticos", mas raramente a Justiça consegue estabelecer a veracidade das acusações?

Levando-se em conta o que está acontecendo, não só na América Latina, mas, inclusive, no processo eleitoral em curso para as eleições legislativas nos Estados Unidos, é ainda de se perguntar: a quem interessa a radicalização do processo político?

As razões verdadeiras não são fáceis de ser detectadas. Talvez seja mesmo, como se diz na conhecida fábula, "da natureza do escorpião".

21 de agosto de 2010

A televisão e o voto

Foi dada a largada para a disputa midiática entre os candidatos para os cargos de deputado estadual e federal, senador, governador e presidente da República nas eleições 2010. Está no ar, desde terça-feira (17/9), o eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Independentemente do tempo reservado para cada um dos cerca de 20 mil candidatos – que pode variar de 12 minutos a 30 segundos – está em jogo a atenção do eleitor. Criado em 1962, o horário gratuito é considerado "chato" por grande parte da população, mas ainda é a forma pela qual a maioria dos brasileiros decide o voto.

Durante cerca de dois meses, é ele que abastece as conversas entre os eleitores em família, nas ruas e no trabalho. Além dos dois blocos apresentados pela manhã e à noite, pequenas inserções de trinta segundos, os chamdos spots, são exibidos ao longo da programação. Entrevistas em telejornais e debates e promovidos por emissoras de televisão também esquentam o período eleitoral. O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (17) pela TV Brasil discutiu o papel decisivo da televisão nas eleições.

Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o cientista social Renato Lessa, professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do Instituto Ciência Hoje, e a jornalista e cientista política Alessandra Aldé . Pesquisadora da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos, Alessandra estuda temas relacionados à Comunicação Política. Em São Paulo, o convidado foi Eugênio Bucci, jornalista e professor-doutor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Bucci é colunista do jornal O Estado de S. Paulo e do site Observatório da Imprensa. Foi presidente da Radiobrás e conselheiro da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura.

Antes do debate no estúdio, na coluna "A mídia na semana" Dines criticou a cobertura de recentes catástrofes em países como Rússia e China. Para o jornalista, os fenômenos não deveriam ser classificados de "naturais" porque são consequência da destruição da natureza promovida pelo homem. Em seguida, Dines analisou a postura da imprensa sobre o caso da iraniana Sakineh Ashtiani.

TV vs. internet Ainda antes do debate no estúdio, em editorial, Dines avaliou que a penetração da TV nos lares brasileiros é imbatível. "O Brasil é essencialmente televisivo. Jornais, revistas, cinema e rádio sempre tiveram grande aceitação e poder de influência, mas o formato TV, a sagrada rotina dos telejornais noturnos, a continuidade das telenovelas estabeleceram um poderoso paradigma de dramaturgia dificilmente substituível", disse. Para Dines, o inovador uso da internet nas eleições que colocaram o presidente Barack Obama na Casa Branca não se repetirá no Brasil. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a rede foi usada de forma intensa, inclusive para arrecadar fundos para as campanhas, os brasileiros usam a internet para apenas para "fazer barulho".

Em seguida o Observatório exibiu uma reportagem na qual Marcus Figueiredo, professor visitante de Ciências Políticas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), comparou o uso das mídias eletrônicas no Brasil e nos Estados Unidos. "O grande público brasileiro está acostumado com o horário [político gratuito] na televisão Este grande público não é usuário da internet de modo que, em uma estimativa, eu diria que a propaganda por meio tradicional – televisão e rádio, no horário eleitoral e os spots – vão ter um peso de 90% em relação à internet", avaliou.

No de debate ao vivo, Dines perguntou a Alessandra Aldé o porquê de a internet no Brasil, apesar de ser usada de forma massiva, não se firmar como uma formadora de opinião e geradora de empatias como a televisão. Alessandra atribuiu a constatação ao fato de o público brasileiro ser um telespectador "exigente e contumaz", que está sempre com o aparelho de televisão ligado. Outro fator que contribui para o quadro é o alto padrão de qualidade alcançado pelos canais de TV e pela publicidade no Brasil. Desta forma, na visão de Alessandra, o horário eleitoral acaba se impondo no dia-a-dia da sociedade.

Na bancada do JN
Dines comentou o artigo "William Bonner para presidente?", publicado por Eugênio Bucci em O Estado de S.Paulo no domingo (15/08) – e reproduzido no Observatório online – sobre a série de entrevistas com os presidenciáveis Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva veiculada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, entre os dias 9 e 11 de agosto. A atuação do editor e apresentador do JN, em certos momentos agressiva, levantou polêmica entre os eleitores. Bucci explicou que a brincadeira de propor a candidatura de Bonner teve a intenção de revelar uma espécie de hierarquia entre o jornalista e os candidatos.

"O que nós vimos ali como linguagem cênica, como postura, como gesto, indica que os candidatos atendem a uma solicitação da autoridade mais alta, que é justamente quem apresenta o Jornal Nacional. É como se o apresentador estivesse falando de cima para baixo com eles", criticou. Bucci ponderou que a situação não ocorre exclusivamente neste telejornal. O discurso da TV se impõe porque está é natureza do veículo. O fato ocorre, na visão de Bucci, porque o telejornal é considerado o ponto de encontro dos brasileiros consigo mesmos. A idéia de que a leitura do jornal pela manhã é a oração do homem moderno foi substituída. "O encontro do país no Jornal Nacional era e ainda é o momento em que a nação se passa a limpo", disse. O apresentador acaba representando a pergunta dos cidadãos.

Renato Lessa comentou que o alcance da televisão no Brasil é muito superior ao de serviços básicos como esgoto e calçamento de ruas. É praticamente universal. "Euclides da Cunha dizia que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. O brasileiro é, antes de tudo, um telespectador", disse. O cientista social concorda com a análise de Bucci sobre o JN e acrescentou que a televisão configura fatos, estabelece entre eles narrativas de causalidades e as apresenta para a população como se fossem a representação fiel da realidade. "Isto é um sobrepoder extraordinário", sublinhou.

De cima para baixo Com a imposição da televisão como representante genuína do povo, cria-se uma profunda distorção política. Lessa destacou que os representantes são, na realidade, os que estão legitimados, transitando no ambiente político. No entanto, há uma autoridade "metapolítica", "sobrepolítica", à qual todos têm que "prestar uma certa reverência". "Há um operador de diminuição nesta relação que é uma maneira de propor a televisão como o espaço fundamental da sociedade brasileira, como se política fosse uma coisa menor", explicou. Para Lessa, a mídia eletrônica não cumpre o papel de auxiliar na criação de uma consciência cívica. O lugar que a política ocupa é ínfimo e engessado. Neste contexto, a televisão aparece mais como um poder e não como um serviço.

Outro ponto discutido no Observatório foi a configuração do horário eleitoral. Dines questionou se poderia haver alguma reformulação que impedisse disparidades de tempo e destacou que a propaganda gratuita na TV traz para o processo político os eleitores do "Brasil profundo". Alessandra Aldé avaliou que o início do horário reservado aos candidatos é o elemento de maior impacto na definição do voto do brasileiro. É o que marca o começo do "tempo para a política" do cidadão, quando a sociedade passa a se interessar pelo processo eleitoral.

Alessandra ponderou que apesar das críticas sobre a desigualdade de tempo de exposição entre os candidatos, o formato brasileiro é reconhecido internacionalmente como democrático. No Brasil, qualquer partido tem acesso ao horário eleitoral, mesmo que não tenha representantes eleitos. A cientista política explicou que nos Estados Unidos o tempo na televisão é pago pelos partidos políticos ou por quem os apoia, o que cria uma dependência maior do financiamento privado de campanha. "O horário eleitoral, de maneira geral, é um elemento de democracia para a comunicação eleitoral brasileira", assegurou.

Quem paga a conta? Para Renato Lessa, é preciso observar a representatividade dos partidos para dividir o tempo de exposição gratuita na televisão e no rádio, mas este fator não pode criar dificuldades para que grupos políticos menores alcancem representatividade através do próprio processo eleitoral. O pluralismo e a competitividade política têm que ser mantidos. Nesta eleição, por exemplo, a forma de calcular o tempo dos candidatos a presidente contribuiu para a polarização entre dois candidatos.

Eugênio Bucci chamou a atenção para o fato de que o horário eleitoral não é gratuito. "Ele é gratuito para os partidos, mas o cidadão paga na forma de renúncia fiscal ou de abatimento no Imposto de Renda das emissoras", explicou. Bucci disse os canais de TV e emissoras de rádio são ressarcidos, no imposto de renda a pagar, com cerca de 850 milhões de reais pelo o que deixaram de receber com publicidade no período em que o horário eleitoral é veiculado. "A sociedade paga esta fortuna", disse.

*** As eleições na TV Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 559, exibido em 17/8/2010  Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. A televisão fez hoje [terça, 17/8] a rentrée na campanha eleitoral, uma semana depois da série de entrevistas dos três principais presidenciáveis na bancada do Jornal Nacional. Há 15 dias, a Band fez o primeiro debate entre os quatro candidatos mais bem colocados e, apesar da baixíssima audiência, teve o mérito de exibir o seu tremendo potencial como fabricante de empatias.

O Brasil é essencialmente televisivo. Jornais, revistas, cinema e rádio sempre tiveram grande aceitação e poder de influência, mas o formato TV, a sagrada rotina dos telejornais noturnos, a continuidade das telenovelas estabeleceram um poderoso paradigma de dramaturgia dificilmente substituível.

O sucesso da internet nas últimas eleições americanas aparentemente não se repetirá. As redes sociais também são fortes aqui – lembram do "Cala a Boca Galvão" da Copa? – mas sua função é reverberar, fazer barulho e logo sair atrás de outro estouro. A TV humaniza, traz os personagens para a sala de jantar, sejam atores, jornalistas ou candidatos, e isto há algumas décadas.

Mais do que o comício digital da web, o palanque eletrônico da TV oferece muitas oportunidades aos jornais. É a sua chance de mostrar que não morreram. Antes disso terão que despertar da atual letargia.

*** A mídia na semana
** As catástrofes na Rússia, China e Paquistão estão sendo erroneamente chamadas de naturais. Na verdade são antinaturais porque resultam das agressões do homem à natureza. Mas o aumento extraordinário do número de focos de incêndio no Brasil, este sim, é claramente obra do agricultor-predador que neste ano já incendiou 15 mil pontos em todo o território nacional, com predominância no Centro-Oeste e na Amazônia. A mídia noticia, não denuncia. O cidadão não se abala, acostumou-se, já viu este filme. Mas este filme pode trazer surpresas.

** É ridícula a resposta do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, ao oferecimento do governo brasileiro para receber Sakineh Ashtiani ameaçada de ser executada por apedrejamento. Disse o líder iraniano: "Não queremos criar problemas para o presidente Lula". Nossa mídia engole tudo, só reage quando já não há o que fazer. O presidente do Brasil tem mandato para atender aos desejos dos brasileiros: livrar a iraniana da morte e trazê-la para o Brasil será um trunfo político para o governo e motivo de enorme alegria para todos nós. A mídia não sabe dizer isso, não sabe ser candente. A não ser quando se trata da venda do Neymar para o Chelsea.

Fonte: Obervatório da Imprensa