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18 de outubro de 2010

Oportunidade desperdiçada


Mais um debate desperdiçado. É o segundo do segundo turno. As mensagens de propaganda política nos intervalos dos blocos foram mais incisivas e contundentes, inclusive o comercial da Folha de S.Paulo, com forte conotação antitotalitária.

Os candidatos continuam engessados pelos marqueteiros e pelas respectivas fragilidades programáticas. A questão ambiental sequer foi aflorada. Os vinte milhões de eleitores de Marina Silva mereciam uma palavra sobre o assunto.

O único dado positivo do debate Folha-Rede-TV! foi a eliminação da histeria religiosa. Acabou o Auto da Fé, o surto inquisitorial foi dominado. O Todo Poderoso só foi invocado uma vez e erroneamente: no lugar de acreditar na vitória "com a ajuda de Deus", saiu um "graças a Deus". Não é pecado: nosso compromisso laico não chegou a ficar ameaçado.

Casa limpa
Faltam ainda três encontros televisados e duas semanas de cobertura jornalística com um padrão que dificilmente alcançará o mínimo razoável a julgar pelo que se conseguiu apresentar até agora.
Nossa imprensa ainda não se deu conta e não tem a coragem de lembrar aos atuais governantes que têm apenas dois meses, sessenta dias, para varrer quaisquer resquícios de heranças malditas. O Brasil deve começar o novo mandato presidencial sem qualquer sombra ou ameaça na esfera da moralidade administrativa e do Estado de Direito.

A transição – em todos os níveis e independente das coligações vitoriosas – deve inspirar-se nos paradigmas de 2002, sem ressentimentos ou rancores, de modo a estabelecer uma coesão para enfrentar os graves desafios que os candidatos preferiram manter fora do alcance do eleitoral: a crise financeira internacional e o aquecimento global.

A casa começa a ser varrida no dia 1º de novembro, o futuro está marcado para 1º de janeiro. Não há tempo a perder.

17 de outubro de 2010

Aborto na campanha e na pauta


Na questão do aborto, o cinismo dos candidatos só é comparável ao cinismo da mídia.

De uma hora para a outra, o assunto entrou em pauta e virou o grande tema de campanha. Os candidatos que passaram para o segundo turno fazem questão de se declarar "a favor da vida", como se as mulheres que já tiveram a infelicidade de precisar praticar um aborto (ao que se saiba, mulher nenhuma opta por essa prática a não ser em casos extremos) fossem contra a vida.

A verdade é que, para agradar os religiosos – sejam eles evangélicos ou católicos –, os candidatos recorrem a meias palavras para falar de aborto, sem chegar ao ponto fundamental: por que as mulheres brasileiras ainda são levadas a fazer um aborto? Quais são as condições econômicas, sociais, psicológicas das mulheres que, correndo o risco de enfrentar a lei, chegam a um momento em que optam por interromper a gravidez? Nem os candidatos nem a mídia procuram esclarecer o que há por trás da indústria do aborto, nem discutem o que os abortos mal feitos representam em termos de custo (em dinheiro e em vidas) para o governo.

Nem os candidatos nem a imprensa discutem um outro dado essencial: em termos práticos, o que representaria a decisão de descriminalizar o aborto e quem pode tomar essa decisão – o Executivo ou o Legislativo? Já que os candidatos preferem enganar os eleitores fazendo de conta que, se chegarem ao poder, o aborto estará de vez banido da vida nacional, caberia à imprensa discutir seriamente o assunto, mostrando que já existe uma lei permitindo o aborto em caso de estupro ou de risco de vida à mãe e que qualquer mudança nessa lei depende do Congresso. Ou, como queria a candidata Marina da Silva, modificação só poderia ser feita se houvesse um plebiscito nacional.


"A palavra maldita voltou à agenda da sucessão"

Revistas e jornais fizeram, no fim de semana, um verdadeiro debate sobre o assunto, de preferência mostrando a posição de estudiosos ou dos candidatos.

A revista Veja, por exemplo, mostrou duas declarações diferentes de Dilma Rousseff – em outubro de 2007 e em setembro de 2010. A primeira: "Acho que tem de haver a descriminalização do aborto. Acho um absurdo que não haja." A segunda: "Eu, pessoalmente sou contra. Não acredito que haja uma mulher que não considere o aborto uma violência." A revista completa dizendo que "O PT sempre defendeu o aborto... Agora, por motivos eleitorais, mudou de ideia" (Veja, 13/10/2010). A matéria, de nove páginas, abriu espaço para líderes religiosos, deu um mapa do aborto no mundo e discutiu "quando começa a vida?"

O assunto tinha que ser discutido, não há dúvida, mas para que a matéria de Vejanão ficasse com o tom de propaganda contra, a revista deveria ter ouvido mais gente, como, por exemplo, o candidato José Serra ou, pelo menos, as feministas, que explicam por que o aborto deveria ser descriminalizado.

O jornal O Estado de S. Paulo publicou três artigos assinados sobre o assunto. Na página 2, o título foi "Crença religiosa e manipulação política". No caderno "Aliás", dois outros: "O aborto além da vida" e "Perigos da simplificação" dividem uma página. Dos três artigos, o único que discute a situação da mulher é o da professora Débora Diniz, da Universidade de Brasília, quando diz que:

"Não há saída. Ou se enfrenta seriamente o aborto como uma questão de saúde pública, seu impacto nos serviços de saúde pública, os danos à saúde das mulheres pela prática ilegal e a restrição de direitos que a criminalização impõe, ou teremos um retrocesso democrático semelhante ao enfrentado pelo governo Bush nos Estados Unidos, em que a saúde das mulheres foi subordinada à moral religiosa. Se não se sabe como enfrentar o tema do aborto nestes termos e ainda assim ganhar a eleição, um retorno ao silêncio tenso que marcou a campanha para o primeiro turno é a melhor estratégia política. É pelo menos honesto e não reduz a democracia brasileira ao útero das mulheres."

Na Folha de S.Paulo (10/10), o colunista Elio Gaspari lembra:

"Vinte e um anos depois da noite em que Miriam Cordeiro, a ex-namorada de Lula, surpreendeu o país acusando-o de ter sugerido que abortasse a criança que viria a ser sua filha Lurian, a palavra maldita voltou à agenda da sucessão presidencial. Em 1989, a questão do aborto foi fertilizada pelo comando da campanha de Fernando Collor. Desta vez, reapareceu com o mesmo formato oportunista, trazida pela infantaria do tucanato. Nos dois casos, ninguém mostrou-se interessado em discutir o assunto ao longo dos meses anteriores à eleição. O propósito, puramente eleitoral, sairá da agenda depois do dia 27. Até lá, terá emburrecido o debate, rebaixado a campanha e tisnado a biografia dos beneficiários da baixaria."
Que se discuta de forma séria

Em meio a todas as matérias e artigos publicados no fim de semana, merece destaque o artigo "Obscurantismo", da Folha de S.Paulo, publicado no domingo (10/10). Destaque porque foi a único meio de imprensa que teve coragem de assumir claramente uma posição sobre o assunto:

"Ganha destaque, na atual etapa da corrida sucessória, o tema da descriminalização do aborto. (...) O obscurantismo se estabelece na campanha eleitoral quando o que se procura é antes confundir o eleitor do que esclarecer as próprias posições. Tome-se, por exemplo, o slogan do `direito à vida´, presente na propaganda eleitoral de ambos os candidatos ao segundo turno. Como se sabe, tais palavras têm um sentido claro para o eleitorado católico, e cristão de modo geral, no que apontam para uma condenação do aborto, mesmo nos casos já admitidos na lei brasileira – o de gravidez decorrente de estupro e o de risco de morte para a mãe. Nenhum dos dois candidatos propõe, ao que se saiba, a revogação desse dispositivo. Mas que recorram ao lema do `direito à vida´ é sintomático da dificuldade de ambos em defender o que já existe, na legislação, de contrário às ideias dos eleitores que pretendem conquistar. Esta Folha considera que a legislação vigente deve ser flexibilizada, de modo a permitir que, já sofrendo numa circunstância evidentemente dramática e dolorosa, qualquer mulher possa interromper a gravidez sem que seja considerada criminosa por isto."

Seria muito oportuno que os demais jornais e revistas deixassem claro, assim como deveriam fazer os candidatos, a sua posição sobre o assunto. Ou que, pelo menos, discutissem o aborto de forma séria, mostrando o que pensam os que são contra, mas também os que defendem a descriminalização do aborto.



16 de outubro de 2010

O show da BBC no Chile

O resgate dos 33 mineiros chilenos foi um espetáculo midiático em escala planetária. O governo do presidente Sebastian Piñera montou uma sofisticada operação de marketing político, que incluiu até a confecção de jaquetas especiais para o evento, com o logotipo do governo chileno nas costas.

A TV chilena montou um pool patrocinado pelo governo que chegou a mobilizar 24 câmeras para transmissões ao vivo na grande noite do resgate, que obteve uma fantástica audiência de quase 97% , um recorde que dificilmente será batido no país.

Até o presidente boliviano Evo Morales pegou uma pontinha do show para recepcionar o único estrangeiro entre os mineiros soterrados desde agosto numa mina de ouro e cobre, na região de Capiapó, no deserto de Atacama. Ironicamente, Bolívia e Chile brigam há 127 anos por conta de uma disputa territorial que impede os bolivianos de ter acesso direto ao oceano Pacífico, na parte norte do Atacama.

A visibilidade mundial para o evento foi garantida por uma avalancha de cerca de mil jornalistas que se abalaram para a longínqua mina de San José. A grandeestrela da cobertura jornalística foi a rede britânica de TV BBC, que mandou nada menos que 25 profissionais para o Chile, incluindo Tim Wilcox, o seu badalado âncora de programas domésticos, que deu aos ingleses a sensação de estarem assistindo a um programa local, na hora do café da manhã.

O resgate teve inegáveis conotações épicas, mas só a BBC apostou numa cobertura ao vivo, com uma grande equipe de jornalistas e técnicos, para dar ao mundo a sensação de que "todos estavam lá". Nem a CNN norte-americana chegou perto do que a BBC fez, mesmo enfrentando críticas na Inglaterra. E o sucesso da cobertura da Beeb (apelido dado pelos ingleses) pode estar abrindo caminho para uma nova modalidade de espetáculo midiático internacional.

O site Follow the Media, especializado na cobertura da mídia mundial, rotulou o novo estilo como uma tentativa de levar os espectadores até o lugar onde esteja ocorrendo algum drama humano — ou capaz de ser humanizado. Este tipo de cobertura já escapa aos moldes jornalísticos clássicos porque incorpora fortes doses de emoção e de dramatização.

Quem assistiu ao resgate dos mineiros chilenos pela BBC na madrugada o dia 13 de outubro torceu junto pelo sucesso da operação. A postura dos espectadores minimizou a preocupação com a cobertura jornalística, fato reforçado inclusive pela participação do âncora britânico que narrou o evento da maneira mais informal possível. Ele nunca assumiu o papel de estrela do espetáculo, como fazem os nossos profissionais.

Do ponto de vista estrito, o jornalismo passou a um papel secundário no show chileno porque as preocupações com o marketing político/institucional do presidente Piñera e a inevitavel abordagem tipo infotainment (jargão inglês para a combinação de informação e entretenimento) contaminaram toda a cobertura. O público foi transformado em voyeur de um evento inédito na história da mineração mundial.

E pelas repercussões do caso, ele tem tudo para se transformar num novo paradigma de coberturas internacionais transformadas em eventos domésticos graças ao enfoque "todos estavam lá".

10 de outubro de 2010

EPC: "um programa de pesquisa geral para o campo da comunicação"

Por Rafael Cavalcanti e Anderson Santos


Publicamos hoje a última das entrevistas realizadas com professores que estudam a comunicação sob o sub-campo da Economia Política. O último entrevista é nada mais nada menos que o "fundador" dessa abordagem teórica, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe, César Ricardo Siqueira Bolaño.

Com a publicação na década de 1980 do livro Mercado Brasileiro da Televisão, resultado da sua dissertação e Mestrado, César Bolaño "fundava" a Economia Política da Comunicação no Brasil, sendo um dos primeiros na América Latina, o que o situa na vanguarda internacional nos estudos comunicacionais.

Personagem importante tanto pela produção científica na área quanto pela capacidade de agregar pesquisadores, é um dos responsáveis pela criação de uma associação (União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura/ULEP-ICC) e de um periódico científico internacional (Eptic). Preside duas instituições, ALAIC e ULEPICC, e o Conselho Deliberativo da Federação das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (SOCICOM).

Atual presidente da Associação Latinoamericana de Investigadores da Comunicação (ALAIC), César Bolaño nos falou sobre a volta da EPC para os eventos da Sociedade Brasileira de Ciências da Comunicação (Intercom) e também explica informações essenciais para o desenvolvimento desta linha teórica aqui no Brasil.



Cepcom-Comulti - Professor Bolaño, como está localizado o estudo da Economia Política da Comunicação nas Ciências da Comunicação do Brasil? E o que a distingue dos outros estudos da área?
César Bolaño – Bom, a Economia Política da Comunicação é um sub-campo da comunicação. Agora é um sub-campo que tem determinadas especificidades, um diálogo muito próximo com o materialismo histórico e um caráter muito interdisciplinar e nesse sentido nós consideramos como um programa de pesquisa, no sentido para evitar a palavra paradigma, um programa de pesquisa geral para o campo da comunicação. Não exclusivo, evidentemente, mas, do ponto de vista epistemológico, um diálogo onde é possível discutir todas questões da comunicação a partir desse ponto de vista.

CC – Qual é ou quais são o principal ou principais objetos de estudo da Economia Política da Comunicação?
CB – O objeto de estudo da Economia Política da Comunicação é a comunicação, é os meios e as mediações, para usar os termos do Martin Barbero que todo mundo conhece. A Economia Política da Comunicação discute meios e mediações. Discute a comunicação de um modo geral, não apenas a mídia, não apenas os processos de concentração, que é o que a economia política europeia, americana, faz mais; não apenas a denúncia dos processos de poder e de concentração nos meios de comunicação, que nós também fazemos, mas a comunicação interpessoal, as relações de mediação nisso, agora sempre na perspectiva das estruturas de poder, de macropoder e de micropoder, e das relações de classe.
CC – Por essa perspectiva, de que forma se dialoga o avanço tecnológico e com a democratização da comunicação?
CB – Com o avanço tecnológico, uma perspectiva muito crítica, não é, de entender, por exemplo, a internet, os novos meios de comunicação como elementos que carregam possibilidades importantes de democratização, mas que na sua essência são mecanismos de controle social e de acumulação de capital. Então, justamente a característica da economia política que é entender esse objeto, por exemplo, e todos os outros objetos numa perspectiva dialética e crítica. Não há ufanismo e nem uma visão negativa e impotente diante dos fatos. A questão é entender quais são as contradições e, portanto, quais são as possibilidades de mudança que estão postas para os atores sociais num determinado momento.
CC - Quem trabalha com a EPC hoje no Brasil?
CB – Quem trabalha com a EPC hoje no Brasil é um grupo relativamente grande neste momento, quer dizer, pode dizer que é um grupo grande pequeno, porque é pequeno quando comparado a áreas disciplinares, como Jornalismo, Publicidade, que tem cursos, mas, portanto, é pequeno porque é um grupo transdisciplinar que pega um paradigma teórico para desenvolver, em seus diferentes textos, mas é grande no sentido que tem uma história já de... Só para dar um exemplo do site Eptic, do portal Eptic, da revista Eptic Online, mais de dez anos de produção ininterrupta, com muita produção e diferentes grupos. Você tem esse grupo aqui da Intercom, tinha o grupo que se organizava na Compós, que agora não tá funcionando, você tem núcleos em diferentes universidades, como em Sergipe, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, vários grupos que se organizam em torno disso... Em cada lugar você pode ter grupos relativamente pequenos e muito ativos e que tem uma federação internacional, como é a Ulepicc, que tem um capítulo nacional muito ativo. A internacional já vai para o seu sétimo congresso bi-anual. A nacional já vai para o seu terceiro congresso. Quer dizer, é um grupo bastante dinâmico e que tem muita gente trabalhando, eu não quero citar nomes.
CC – Claro. Agora sobre o Intercom. De que modo você avalia o trabalho da EPC aqui no congresso nacional, em especial no minicurso, que é uma das novidades do Congresso esse ano?
CB – Olha, a Economia Política da Comunicação no Brasil ela surgiu dentro da Intercom há muitos anos atrás. Quando surgiram os primeiros grupos da Intercom, o grupo da Economia Política surgiu ali e tem uma longa trajetória nesse campo. No ano 2000, nós realizamos um último encontro e depois esse grupo foi encerrado, mas a Economia Política da Comunicação cresceu muito e de alguns anos pra cá, graças ao empenho e à generosidade do professor José Marques de Mello, nós retornamos através do Fórum Eptic, recriamos o grupo, o grupo já tá funcionando esse ano pela segunda vez e este ano nós resolvemos oferecer também um minicurso para os estudantes. A experiência foi muito boa. Então eu acho que a nossa relação com a Intercom é histórica, houve um pequeno interregno porque a política é assim, mas nesse momento a gente agradece muito à atual diretoria da Intercom e não posso deixar de citar sempre o professor José Marques de Mello, que foi quem nos apoiou mais nesse momento.

8 de outubro de 2010

A última coluna da psicanalista

O Estado de S.Paulo finalmente publica, na edição de sexta-feira (8/10), cartas de leitores contrariados com o afastamento da psicanalista Maria Rita Kehl, que escrevia aos sábados no caderno chamado "C2+Música".

Textos sobre o assunto vinham pontuando na internet, em geral acusando o jornal de haver demitido a colunista por haver escrito um artigo no qual falava sobre eleições e a favor do atual governo.

A resposta oficial do Estadão, assinada pelo diretor de Conteúdo Ricardo Gandour, é que a colunista foi afastada num processo "natural" de substituições que vem ocorrendo no jornal. E que não se trata de censura. No entanto, o diretor do jornalão paulista deixa claro que andava contrariado, desde semanas antes, pelo fato de que Maria Rita Kehl vinha escrevendo sobre política, comportamento de eleitores e campanha eleitoral.


Há preconceito

Na justificativa publicada na sexta-feira, ao pé das cartas de leitores, o jornal diz que "o projeto original do caderno ‘C2+Música’ é ter aos sábados um espaço para a psicanálise, mas não era esse o enfoque que Maria Rita Kehl vinha dando à coluna". Ora, o jornal parece ignorar que em psicanálise os temas são quase sempre tratados indiretamente, buscando interpretações da realidade muitas vezes através de metáforas.

Na última coluna, publicada no sábado, dia 2, véspera das eleições em primeiro turno, a psicanalista tratou das correntes de mensagens na internet que procuram desqualificar os votos dos mais pobres, dizendo que são vagabundos porque, segundo esses missivistas, preferem viver do Bolsa Família do que procurar emprego.

Esse renitente preconceito, que realmente faz parte dos bordões mais conservadores das eleições desde 2006, não deveria ser considerado assunto estranho a uma psicanalista. Mas acontece que Maria Rita Kehl defende publicamente o Bolsa Família, o que deve ter desagradado a alguns próceres do Estadão.

O fato de o jornal haver publicado a última coluna, justamente essa que aborda a questão do preconceito de classes, não alivia a percepção geral de que houve, sim, um viés político a precipitar o afastamento da colunista. Principalmente porque em nenhum outro espaço o jornal se permitiu discutir o tema tratado por ela em sua derradeira colaboração: existe, de fato, esse preconceito, que viceja na internet e foi estimulado pela imprensa.


Ausência notada

É fato facilmente comprovável, principalmente pelos observadores que têm a mania de colecionar editoriais, artigos e manchetes de jornais e revistas, que a imprensa tradicional, majoritariamente, passou os últimos anos, até muito recentemente, demonizando as políticas sociais do atual governo.

O governo anterior também produziu políticas semelhantes, embora de menor alcance, quase todas idealizadas e conduzidas pela falecida ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Este observador teve a oportunidade de assistir uma conferência de Dona Ruth na Universidade Berkeley, nos Estados Unidos, sobre seus programas sociais, que foi entusiasticamente aplaudida pela platéia de professores e estudantes americanos.

O trabalho de Ruth Cardoso não foi tratado com o mesmo preconceito. Foi simplesmente ignorado por aqui, embora aplaudido internacionalmente. Ela nunca mereceu da imprensa brasileira o devido reconhecimento. Seria o mesmo preconceito?

Foram inúmeros os editoriais, artigos e reportagens tentando desqualificar o Bolsa Família. Houve em São Paulo, nos últimos cinco anos, pelo menos três seminários técnicos sobre avaliação de resultados econômicos dos programas sociais de transferência de renda, todos organizados pelo Instituto Itaú Social, do Banco Itaú. Em todas essas ocasiões, demonstrou-se que tais programas produzem resultados econômicos consideráveis, e não apenas no Brasil, mas também em países como México, Índia e Colômbia.

Este observador compareceu a todos esses seminários. Nunca encontrou por lá nenhum diretor de jornal ou revista. Apenas em um deles, ocorrido em 2006, apareceu o editor de Economia do Estadão, que se confessou completamente alheio ao assunto.


Evidências à vista

O artigo que encerrou a carreira de Maria Rita Kehl no Estadão falava de preconceitos e de uma luta de classes dissimulada cujos fragores podem ser percebidos em correntes na internet.

Mas essa luta de classes também está presente na chamada grande imprensa, nos artigos de profissionais referendados por lustrosos títulos acadêmicos, nos quais se condena liminarmente qualquer política pública que procure resgatar a desigualdade que prejudica os brasileiros de pele escura e os programas sociais de transferência de renda.

Com tantas evidências, fica difícil justificar o afastamento de uma colunista que discorda dessa linha editorial.

Leia também"Fui demitida por um ‘delito’ de opinião" – Bob Fernandes